'Posso estar condenando um paciente', lamenta coordenadora da Central de Leitos de Porto Alegre


Profissionais da regulação relatam a rotina de ter que escolher quem poderá ser transferido para a UTI e quem terá que aguardar. RS tem mais de 100% das lotação pelo terceiro dia seguido. “Posso estar condenando um paciente”, diz funcionária da central de regulação de leitos
Com mais pacientes precisando de tratamento intensivo do que leitos de UTI disponíveis nos hospitais, cabe à Central de Regulação de Leitos a escolha de quem poderá receber atendimento e quem terá que aguardar por uma vaga cada vez mais rara.
“A minha escolha, que fiz agora há pouco, por exemplo. Escolhi um paciente para colocar [em leito de UTI] e posso estar, com isso, condenando um paciente, infelizmente, a permanecer onde ele está, com parcos recursos para atendimento, e esse paciente, muito provavelmente, não vai sobreviver”, lamenta Denise Tessler, coordenadora da Central de Regulação de Leitos de Porto Alegre.
Ela afirma que, nesses momentos, pensa na própria família. “A gente começa a pensar que esse paciente não é só um nome, um número, aqui para nós. Ele tem uma história, ele tem uma família, ele tem pessoas. É muito triste isso”, emociona-se.
Coordenadora da central de leitos se emociona com superlotação nos hospitais da Capital
Reprodução/RBS TV
Veja a ocupação dos leitos de UTI e clínicos em Porto Alegre
Nesta quinta-feira (4), a ocupação dos hospitais da Capital era de 103,78%. Havia 638 pacientes com Covid-19 em UTI, e 161 ainda aguardavam leitos.
O ideal é que os pacientes que mais precisem saiam o mais rápido possível das emergências para os hospitais. Mas não há vaga, nem para Covid, nem para outras doenças.
“Antes a gente ordenava, mas sabia que conseguiria pôr todos para dentro do hospital. Demorando mais ou menos, eles teriam acesso. Hoje, infelizmente, a gente sabe que aqueles que ficam por último provavelmente não vão chegar a tempo no leito de hospital”, afirma Jorge Luiz Silveira Osório, diretor-geral da Regulação de Porto Alegre.
A conversa diária é com 20 hospitais da Capital, conectados de forma simultânea, em um esforço conjunto para tentar acelerar as transferências. Minutos podem fazer a diferença entre a vida e a morte de alguém.
“A gente está no pior momento. O número de solicitações em tempo pré-pandemia era, em média, de 20, 15 solicitações para regular. Hoje a gente tem 150. A gente lidava diariamente com 15 pacientes. Hoje, a gente lida com 150”, compara Jorge Luiz.
Equipes de regulação de leitos enfrentam o desgaste emocional no RS
Professora lembra drama para transferir a sogra: ‘Coisa mais triste’
Como não há leitos para todo mundo, é preciso definir prioridades. Os que estão nos pronto-atendimentos e nas emergências, os mais graves e os que têm mais chances de sobreviver vão para ponta da fila.
A professora Ângela Zanettini acompanhou a sogra em um pronto atendimento. Os rins da dona Odete pararam de funcionar e a transferência era urgente. Mas ela ainda teve que esperar a vaga por quatro dias.
“Ela não conseguiu leito logo por causa da Covid, do grande número de pessoas, chegando a toda a hora no hospital. Não tinham leito porque eles tinham que acomodar aquelas pessoas que estavam ali já com falta de ar, tendo que ser entubadas. Era uma coisa mais urgente do que o caso da minha sogra. Então, ia sendo passado na frente, e o leito não liberava nunca”, recorda Ângela.
Pacientes em cadeiras, enfermarias lotadas, doentes esperam transferência dentro dos pronto-atendimentos. A professora lembra que testemunhou isso tudo de perto.
“Foi muito horrível. Ambulância chegando o tempo todo, aquele desespero, e os próprios enfermeiros diziam: ‘Não tira a máscara porque a gente está acabando de entubar uma pessoa aqui do outro lado da parede’. Aquilo dava um desespero na gente, porque a gente via aquele monte de gente no corredor, ajeitados numas poltronas. Porque não é cama; é cadeira, é poltrona. É a coisa mais triste, porque são seres humanos, pessoas como a gente, e a gente vê ali aquelas pessoas atiradas, porque não tem um lugar melhor pra ficar”, relata.
“A gente vê, vindo para cá de manhã cedo, gente na rua que certamente está vindo de festas, nem aí, nem máscaras, todos juntos. Quando a gente sabe que, depois, essas pessoas vão chegar em casa e estão contaminadas, ou são os próximos que vão chegar na nossa tela. Ou pior: ainda vão contaminar os familiares, muitos que nem a primeira dose da vacina têm, e são aqueles que vão precisar”, alerta Denise.
“A gente não consegue dormir por pensar 24 horas na situação. Mas a gente não vai desistir”, garante o diretor.
Ocupação de leitos de UTI em Porto Alegre é de 103%
Reprodução/RBS TV
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