Pandemia deixou mulheres mais expostas à violência e fora do mercado de trabalho, diz estudo


Pesquisa do Departamento de Economia e Estatística, da SPGG, mostra que isolamento prejudicou mais mulheres do que homens. Mulher usa máscara em ônibus no Rio de Janeiro
Marcos Serra Lima/ G1
A pandemia do coronavírus afetou, principalmente, as mulheres no Rio Grande do Sul. Um estudo feito pelo Departamento de Economia e Estatística, da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), divulgado nesta terça-feira (30), mostra que as mulheres tiveram uma redução acentuada na participação na força de trabalho, além de queda nos rendimentos na comparação com os homens, e, ainda, maior exposição às situações de violência.
O documento sobre igualdade de gênero é produzido desde 2019 e foi elaborado pelas pesquisadoras Mariana Lisboa Pessoa e Daiane Menezes.
O estudo mostra a evolução dos indicadores do RS na busca pelo cumprimento de um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), que trata da promoção da igualdade de gênero como forma de reduzir as desigualdades sociais.
“A análise dos principais indicadores demonstrou, de maneira geral, que as mulheres foram bastante afetadas pelas medidas de prevenção da disseminação do coronavírus, resultando na diminuição de registros de violência na contraposição do aumento de casos e a sobrecarga de trabalho”, destaca a pesquisadora Mariana Lisboa Pessoa.
Brasil é um dos países onde a pandemia mais afetou a saúde psicológica de meninas e de jovens mulheres
Os efeitos colaterais da pandemia sobre a vida das mulheres
Violência contra a mulher
No primeiro semestre de 2020, a taxa de violência contra a mulher no RS foi de 108 por 100 mil mulheres, quase igual à média nacional, que foi de 108,7. Com isso, o estado ficou em 5º lugar no país em números absolutos (6.299 casos) e em 7º na relação com a população, atrás de Rio de Janeiro, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Amazonas.
O que preocupa os especialistas é que o ambiente doméstico foi o que apresentou o maior número de violações denunciadas, tanto no Brasil quanto no Rio Grande do Sul, com 98,2% e 95,3% dos registros. A casa onde residem a vítima e o suspeito (ou seja, em que provavelmente o agressor é um cônjuge) corresponde a 55,5% e 51,3%, respectivamente.
“A diminuição dos registros de ocorrência de violência contra as mulheres, em contraposição com o aumento dos casos, como um efeito provável das medidas de isolamento social, em que as mulheres em situação de vulnerabilidade se mantiveram confinadas com seus (potenciais) agressores, fazendo com que sofressem mais violações mas, em contrapartida, tivessem menos possibilidades de acesso aos canais de denúncia e a serviços de acolhimento e proteção”, conclui o estudo.
O estudo destaca também o impacto do isolamento social na redução do registro de ocorrências de violência contra a mulher, especialmente a partir do segundo trimestre do ano, em função da necessidade de denúncia presencial para a maior parte delas.
Entre os tipos de agressão computadas pela Secretaria de Segurança Pública do RS (ameaça, lesão corporal, estupro, feminicídio tentado e feminicídio consumado), todas apresentaram redução, com exceção do estupro, que teve aumento de 8,7% em 2020 na comparação com 2019, com um total de 1.863 registros.
O relatório aponta ainda a redução, a partir do segundo trimestre, do número de medidas protetivas concedidas pelo Tribunal de Justiça. Nos primeiros três meses de 2020, houve um aumento de 5,2%, seguidos de quedas de 8%, 14,4% e 20,4% nos demais trimestres na comparação com os mesmos períodos de 2019.
“O aumento de casos de crimes sexuais era esperado dentro do contexto da pandemia, uma vez que muitas vezes as vítimas encontram-se confinadas com seus agressores. No caso das medidas restritivas, não parece ser uma opção por uma série de fatores, entre eles a dependência financeira e emocional e a falta de uma rede de apoio”, ressalta Mariana.
Mercado de trabalho e rendimentos
O estudo do DEE detalhou dados sobre as mulheres no mercado de trabalho entre 2015 e 2020. No ano passado, as mulheres do RS tinham um rendimento salarial 27,4% menor do que o dos homens, a maior diferença do período analisado. Quanto ao rendimento por hora, o ganho das mulheres passou a representar 82% do recebido pelos homens, contra 85% em 2019.
O ano de 2020 marcou ainda a menor presença das mulheres na Taxa de Participação na Força de Trabalho (TPFT) no período analisado, com percentual de 51,7%, contra 56,4% em 2019 e 60,2% em 2015.
A TPFT indica a porcentagem de pessoas em idade de trabalhar (14 anos ou mais) que estão empregadas ou em busca ativa de trabalho em relação ao número total de pessoas. O movimento de baixa iniciou a partir do segundo trimestre, com a acentuação das medidas restritivas para combate ao coronavírus, que levaram mais mulheres a abandonar o mercado de trabalho para cuidados de crianças e idosos.
De acordo com os dados do IBGE utilizados no estudo, até o primeiro trimestre de 2020, o percentual estava no mesmo patamar do ano anterior.
O documento mostra ainda que a média mensal de horas dedicadas às atividades de cuidados de pessoas ou afazeres de casa foi de 20 horas para mulheres do RS em 2019, contra 11,5 horas para os homens, similar ao registrado em 2016 (20,6 contra 11,5).
Práticas nocivas
Casamentos prematuros e a maternidade de meninas também estão entre os dados analisados no estudo. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, entre 2016 e 2019, não foram registrados casos de casamento de menores de 15 anos e no Rio Grande do Sul há dois registros em 2017.
Em relação aos nascimentos de mães meninas e mães adolescentes no estado, entre 2015 e 2019, houve redução de 42% nos casos de bebês de mães de 10 a 14 anos, caindo de 869 para 503 os registros. Na faixa de meninas entre 15 a 19 anos a redução foi de 30%, com variação de 20.700 para 14.428 nascimentos.
Mulheres na política
As eleições de 2020 indicaram um aumento no número de mulheres concorrendo para os cargos em disputa. As mulheres representam 52,5% dos eleitores no Rio Grande do Sul mas obtiveram uma participação de 17,5% entre as eleitas, pouco acima dos números do Brasil (15,7%).
Considerando apenas o cargo de prefeito(a), apenas 7,7% dos eleitos no RS foram mulheres, contra 12,1% no Brasil. Ao cargo de vereador(a) a participação das mulheres foi de 19,2% e para vice-prefeito(a) de 17,5%.
Perfil médio dos candidatos à Prefeitura e à Câmara de Porto Alegre difere do público eleitor
Saúde sexual e reprodutiva
O estudo do DEE mostra ainda uma queda significativa na taxa de detecção de AIDS/HIV em mulheres gaúchas entre 2015 e 2020 — de 31,7 para 14,4 casos por 100 mil habitantes.
Em relação ao acompanhamento pré-natal adequado, houve uma melhora do RS, onde 71% das gestantes tiveram acesso em 2019 contra 68% em 2017.
Quanto ao tipo de parto, os partos normais representaram 37% dos casos no RS em 2019 contra 44% no Brasil. Quando levado em conta a raça/cor das mulheres, o documento indica que os partos cesáreos têm maior concentração nas mulheres brancas. Enquanto elas optam pela cesárea em 66% das ocasiões, mulheres pretas têm partos normais em 50,9% dos casos.
O material aponta que as mulheres pretas têm menos chance de escolher o tipo de parto, são mais atingidas por violências obstétricas e recebem menos orientações sobre complicações no parto.
VÍDEOS: Bom Dia Rio Grande

Ultimas notícias

Voluntários produzem pães para doar a estudantes da rede pública de Taquara

Campanha começou, há três semanas, produzindo 100 pães. Com doações da comunidade, volume foi duplicado. Produção dos pães...

Hospitais gaúchos ganham 80 milhões de reais para o combate ao coronavírus

O governo do Estado repassou, nesta sexta-feira (9), R$ 80 milhões a cerca de 200 hospitais gaúchos para o custeio dos serviços ambulatoriais e...

Municípios do RS notificam Anvisa por lotes de vacina contra a Covid com menos doses do que indicado

Conselho de Secretarias Municipais da Saúde estima perda de 20 mil doses em 100 cidades. Agência afirma que...

Corujas são devolvidas à natureza após tratamento em Porto Alegre

Filhotes foram encontrados em uma rua da Zona Sul da Capital há três meses. Animal é comum em...

Veja tambem