Morte de João Alberto provocou fim de terceirização de seguranças, diz executivo do Carrefour seis meses após o crime


Homem negro foi espancado e morreu asfixiado em novembro de 2020; 6 pessoas respondem pelo crime. Vice-presidente de Recursos Humanos da empresa fala ao G1 sobre mudanças na rede. Vice-presidente de RH do Carrefour fala sobre o fim da terceirização de seguranças
O assassinato de João Alberto Silveira Freitas, homem negro espancado por seguranças no estacionamento do Carrefour Passo D’Areia, em Porto Alegre, completa seis meses nesta quarta-feira (19). O crime, pelo qual seis pessoas respondem, iniciou uma série de mudanças no Brasil nos hipermercados de uma das maiores multinacionais do setor do varejo.
“Certamente alguma coisa estava faltando, senão não teria acontecido o que aconteceu”, afirma o vice-presidente de Recursos Humanos do Carrefour no Brasil, João Senise, ao G1.
João Alberto foi agredido por dois seguranças terceirizados, Giovane Gaspar da Silva e Magno Braz Borges, presos em flagrante e réus por homicídio na Justiça do RS. A viúva, Milena Borges Alves, ainda negocia com a empresa a indenização. O crime aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra.
O Carrefour apostou em modificar a relação com as equipes de segurança a partir do crime, internalizando as contratações e eliminando a terceirização.
“Tínhamos como plano inicial fazer a internalização das quatro lojas de Porto Alegre e, depois nas demais, gradativamente, até outubro. Mas a internalização já aconteceu em todas as lojas. Mais importante ainda foi a questão de reeducar esses profissionais, treiná-los. Reforçar todos os compromissos do Carrefour em relação à diversidade, especial no combate ao racismo”, aponta Senise.
O executivo aponta que a empresa já contava com comitês e práticas internas de diversidade.
“A gente vai trabalhando em casa, mas isso não vai ajudar a mudar o cenário externo, nem no curto nem no médio prazo. O impacto é muito lento. Quanto tempo isso demora para mexer com a sociedade?”, reconhece.
Veja perguntas e respostas sobre a morte do cidadão negro em um Carrefour de Porto Alegre
A partir do homicídio, a empresa passou a contar com mais um comitê, externo, formado por participantes de movimentos que defendem a igualdade. A partir desse comitê surgiram novas ideias, conforme Senise, como a de criar editais que fomentem o empreendedorismo negro.
Em outra mudança recente, a empresa alterou todos os contratos com os mais de 16 mil fornecedores, incluindo uma cláusula antirracista.
“A cláusula diz que não vamos aceitar nenhum fornecedor que tenha qualquer atitude que não seja antirracista, que tenha casos de racismo em suas operações que não sejam devidamente tratadas. Estamos exigindo dos nossos fornecedores um compromisso explícito com o antirracismo”, diz o executivo.
João Alberto Silveira Freitas foi espancado até a morte por seguranças em supermercado de Porto Alegre
Reprodução
Oportunidades de igual para igual
O Carrefour também percebeu a importância de aumentar a diversidade entre os contratados para cargos de liderança. “A gente precisa dar uma acelerada diferenciada nessa população para que, nas oportunidades que surjam, todas possam competir de igual pra igual”, aponta.
Senise conta que a empresa identificou 100 profissionais negros dentro da empresa que terão plano de desenvolvimento acelerado. Além disso, os processos de seleção têm exigido mais diversidade.
“Em algumas posições, adotamos um direcionamento afirmativo. Vamos buscar prioritariamente mulheres, negros e negras. Se encontrarmos uma mulher negra, melhor ainda. Vamos esgotar essa possibilidade primeiro”, aponta.
Ainda em novembro do ano passado, por exemplo, a multinacional fez uma contratação dentro desses parâmetros. “Contratamos um diretor para nossa área de risco, um profissional que veio de grandes organizações. É um homem negro e veio entusiasmadíssimo. Na entrevista, perguntei: ‘Como você se sente vindo pro Carrefour, dado tudo que está acontecendo?’ Ele falou: ‘Eu estou vendo o que está acontecendo e quero ser parte dessa transformação””, conta Senise.
Carrefour passou a incentivar talentos negros dentro dos cargos da empresa
Indenização da viúva segue em negociação
O pagamento de uma indenização para a viúva de João Alberto, Milena Borges Alves, segue em negociações entre a empresa e os advogados de defesa. A oferta de R$ 1 milhão, que chegou a ser depositada em uma conta aberta por consignação extrajudicial pela empresa, foi recusada.
“Não foi sacado. Foi recusado formalmente ao banco [o valor]. Ainda não posso falar em valores tendo em vista estarmos em tratativas”, diz ao G1 o advogado de Milena, Carlos Alberto Barata Silva Neto.
Ele chegou a comparar o oferecido com a indenização paga no caso do cachorro Manchinha, morto em uma unidade do Carrefour em Osasco.
“Há alguns parâmetros para esse tipo de acordo. Os advogados do Carrefour têm procurado se manter dentro desses parâmetros, que são os usualmente praticados. A gente acredita que está bem perto do acordo”, diz João Senise.
O pai, a filha, a neta, a irmã e a enteada de João Alberto já receberam os valores indenizatórios.
Câmera de segurança mostra início da confusão antes do assassinato brutal de João Alberto
Processo na Justiça
Seis pessoas respondem pelo crime na Justiça: os dois seguranças, Giovane Gaspar da Silva e Magno Braz Borges; Adriana Alves Dutra, funcionária do Carrefour que tentou impedir a filmagem das agressões; Kleiton Silva Santos e Rafael Rezende, funcionário do mercado que auxilia na imobilização da vítima; e Paulo Francisco da Silva, funcionário da empresa terceirizada de segurança Vector. Os dois seguranças seguem presos.
Determinada em fevereiro por decisão judicial, a reprodução simulada dos fatos ainda não tem data para ser realizada, de acordo com a delegada do caso, Roberta Bertoldo. Ela aguarda a definição pelo Instituto Geral de Perícias.
VÍDEOS: Caso João Beto

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