'Me sinto no limite': profissionais de saúde enfrentam esgotamento físico e mental com superlotação dos hospitais no RS


Equipes enfrentam alta nos atendimentos e jornadas extenuantes devido ao coronavírus. Especialista alerta para o risco de síndrome de burnout. Profissionais da saúde que atuam na linha de frente enfrentam esgotamento mental
A superlotação de hospitais devido à Covid-19 tem levado muitos profissionais da saúde à exaustão. A convivência diária com um cenário cada vez pior torna o esgotamento físico e mental, para muitos, uma realidade.
“Me sinto no limite do que está acontecendo. Me sinto no limite da minha capacidade, tendo muitas vidas em nossas mãos. É difícil ter uma couraça que me separe disso tudo e faça não sentir as dores das pessoas, a morte, os medos”, reflete Thiago Dal Bosco, médico da Fundação de Saúde de Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre.
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Há um ano, a pandemia mudou a rotina de quem atua na saúde. Mas a piora das últimas semanas trouxe para os hospitais um cenário comparável a um ambiente de guerra, no relato dos profissionais.
“Nunca como médico eu achei que eu estaria passando por um momento que nem esse. Nunca eu achei que iria para casa, dentro do meu carro, chorando e pensando tudo que eu poderia ter feito”, diz Thiago.
O RS registra instituições com mais de 100% da capacidade de leitos de UTI ocupada desde terça-feira (2). Veja mais no vídeo abaixo.
Entenda como está a situação da falta de leitos de UTI no RS
A alta nos casos também enche os leitos clínicos. Profissionais foram remanejados, e muitos dobram o turno para pode atender todos os internados.
Coordenador médico da emergência do Hospital Vila Nova, na Capital, Fernando Álvares diz que a equipe “não tem hora para entrar nem para sair”.
“Uma demanda incrivelmente grande, gente nova toda hora chegando, gente ruim do andar descendo para a emergência porque os leitos de UTI estão lotados. A gente está fazendo literalmente aqui uma manobra sobrenatural. Está bem complicado”, aponta.
O aumento de jovens internados também causa tristeza entre os profissionais. A enfermeira intensivista Martina Zuchetti, de 30 anos, afirma que se reconhece em muitos pacientes.
“Podia ser eu. Fazia as mesmas coisas que ela, eu também estou ativa, eu também me cuido. E ver também pacientes que são da idade dos meus pais… Então, neste momento que a faixa etária mudou, para mim, está sendo mais difícil. E, claro, já é um acúmulo de cansaço físico e emocional há um ano. Uma hora a gente se sente mais fragilizado mesmo”, lamenta.
Com UTIs superlotadas, profissionais enfrentam cansaço físico e desgaste emocional
Reprodução/RBS TV
Despersonalização e burnout
O esgotamento dos profissionais de saúde durante a pandemia é o tema do ProjeThos Covid-19, que mapeia comentários nas redes sociais. O coordenador Bruno Chapadeiro, pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta que o momento é preocupante.
“É muito curioso, porque eles têm mais medo por verem os colegas se afastando. Mais medo que a saúde mental deles seja afetada do que o próprio contágio pelo novo coronavírus. Isso tem sido muito preocupante e muito frequente nos relatos também”, afirma.
Os trabalhadores também demonstram estarem preocupados com o risco de sofrer com a síndrome de burnout, o esgotamento relacionado ao trabalho.
“Essa sensação de estar acabado, síndrome do esgotamento profissional, como nós traduzimos aqui, ele se caracteriza por uma exaustão emocional, sentimento de desgaste emocional, esvaziamento afetivo das pessoas, uma despersonalização, uma reação negativa frente os processos de trabalho, uma insensibilidade e uma diminuição pessoal do envolvimento com o trabalho, esse envolvimento subjetivo”, explica o pesquisador.
A sensação de impotência é ainda maior diante da negação da doença, como explica Martina.
“Acho que o que mais está pegando na equipe é essa coisa de ver que a gente está ali dando o nosso melhor, [mas] a gente também tem limites e, ainda assim, tem gente negando tudo o que está acontecendo e tudo o que a gente faz”, conclui.
“E isso tem se exacerbado ainda mais agora neste momento em que as pessoas têm tido, inclusive, esse jogo de brincar de Deus, de quem vive e quem morre. Se faz necessário cada vez mais essa despersonalização”, observa Bruno.
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