Grupo de ativistas pelo direito das mulheres denunciou vídeo de médico do RS detido no Egito

Mais de 2 mil ativistas, no Brasil e no Egito, se uniram para espalhar o vídeo nas redes sociais. Nele, Victor Sorrentino faz perguntas de duplo sentido (em português) a egípcia, que não entende. Irmã disse que médico prestará esclarecimentos para desfazer ‘vieses maldosos’. Médico do RS é detido no Egito
Ativistas brasileiros que denunciaram o médico de Porto Alegre detido no Egito após publicar um vídeo em que constrange uma mulher ressaltaram o simbolismo da ação e a revolta com o acontecimento. O caso envolvendo Victor Sorrentino, ocorrido no Cairo, capital do país africano, em 24 de maio, repercutiu nas redes sociais e na imprensa até chegar ao conhecimento das autoridades locais.
O início da repercussão foi quando o caso chegou ao conhecimento do ativista LGBT antirracista Antonio Isuperio, residente em Nova Iorque, nos Estados Unidos, enviado por Fabio Iorio, em Londres. Isuperio foi um dos que acionaram a rede de mais de 2 mil ativistas mulheres, no Brasil e no Egito, incluindo atrizes e influenciadoras brasileiras.
“A gente acha que, realmente, isso pode ser educativo. E também da gente questionar essa questão da piada, que vem sendo questionada. Quem é sempre a piada? Quais são as pessoas?”, disse.
Brasileira e residente no Egito, a empresária Michelle Bastos contou que o objetivo do grupo era alertar as autoridades locais do ocorrido.
“Não sei o caminho exato que a informação fez, a gente saiu espalhando. No sábado [29] à noite, viralizou quando uma página aqui no Egito, que é de ativismo e direito das mulheres, compartilhou. Viralizou aqui no Egito e chegou até às autoridades”, relatou.
Nas imagens, o homem aparece dizendo a uma vendedora que as mulheres “gostam mesmo é do bem duro”. A atendente de um bazar turístico mostrava como é feito o papiro — parecido com o papel, material era usado pelos antigos egípcios para escrever. Veja o vídeo acima.
Familiares de Sorrentino afirmam que o médico “está prestando esclarecimentos às autoridades” (veja nota abaixo). O Itamaraty informou que “já foi informado sobre o caso e as autoridades brasileiras no Egito estão prestando assistência consular cabível ao cidadão”.
Michelle Bastos comentou sobre a revolta que as imagens causaram. “Na hora que eu vi o vídeo, eu fiquei muito revoltada. Não só com o assédio, mas por a menina sequer ter entendido, sequer ter tido chance de se defender, de se revoltar. Ele tem um milhão de seguidores e a menina estava sendo ridicularizada sem saber”, lamentou.
A influenciadora Patrícia Oliveira, responsável pela página Vida no Egito, traduziu as falas ditas por Sorrentino no vídeo do português para o idioma árabe.
“Nós nos sentimos tristes pela moça primeiramente, porque ela fala português, sabe o que estava sendo dito pra ela, mas como funcionária e mulher não se viu no direito de reagir. Fiquei com medo por ela porque no Egito a maioria dos casos de assédio não vai para frente, esse foi porque viralizou”, disse.
Contudo, a influencer Patrícia Oliveira comenta que o caso só foi adiante após a repercussão nas redes sociais, não pelo sistema legal do Egito.
“Eu, pessoalmente, estou meio incomodada. Em todas as redes sociais eu estou vendo brasileiros comentando sobre como o sistema egípcia funciona, que deveria ser assim no Brasil, etc. Esse caso viralizou, então uma mulher egípcia foi protegida de um assediador estrangeiro. O sistema prisional egípcio é péssimo e o Egito é o país que mais tem presos políticos no mundo, me entristece as pessoas não saberem disso e almejarem por um sistema parecido”, observou.
Aspectos legais
Especialista em direito internacional analisa caso de médico do RS detido no Egito
O professor de Direito e Relações Internacionais da Universidade La Salle, Fabrício Pontin, explica que o caso pode ser julgado de duas maneiras, pela legislação civil ou pela legislação islâmica. Para o especialista, há elementos que justificam o enquadramento em ambas as tradições legais, com pena máxima de cinco anos de prisão.
Por se tratar de um suspeito estrangeiro, o caso pode ser analisado em um tribunal civil. Entretanto, a ofensa pode ser interpretada não só em relação ao gênero da vítima, mas à religião islâmica. Na avaliação de Pontin, em qualquer das situações, Sorrentino não deve ser preso.
“Acho muito difícil ele sofrer uma punição de prisão no Egito, ser preso e cumprir pena no Egito”, disse.
O especialista pondera que, com uma legislação nova específica para crimes contra a mulher e a repercussão do caso localmente, o Egito estaria disposto a mostrar à sociedade que mudou sua atitude, assumindo uma postura mais dura contra o médico brasileiro.
Por outro lado, a economia turística do país poderia sofrer impactos em sua imagem internacional no caso de uma prisão de um turista estrangeiro. “Não há nenhum motivo para o Egito negar uma saída diplomática para essa questão”, comentou Pontin.
O professor Fabrício Pontin acredita que o médico deverá pagar uma multa, podendo ser deportado ao Brasil, após negociação entre autoridades diplomáticas dos dois países. “Se entra numa corte islâmica, o tamanho da reparação pela ofensa, não em termos de pena, mas em termos pecuniários mesmo, da multa, pode subir um pouco”, afirmou.
De acordo com Pontin, não há registros de casos semelhantes envolvendo cidadãos brasileiros no Egito. A saída de Sorrentino do país africano pode se dar por deportação ou expulsão, critérios que podem variar conforme a lei local.
A extradição não se aplica neste caso, pois se trata de um país solicitando o retorno de alguém condenado em seu sistema legal, mas encontrado no exterior, explicou Pontin.
Nota da família de Victor Sorrentino:
“Vimos, por meio desta informar, que são irreais e inverídicas as manchetes de prisão do Dr. Victor Sorrentino. O médico está prestando esclarecimento às autoridades para desfazer, assim como já havia feito, inclusive, com a própria egípcia, os vieses maldosos implementados aos seus atos por parte da imprensa, na última semana. Assim, quando terminados os trâmites no país, o Dr. Victor retornará e explicitará todo o ocorrido”.
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