De exemplo de controle a epicentro de mortes no país: 1 ano da primeira morte por Covid no RS


Estado lidera na taxa de óbitos por 100 mil habitantes nos últimos sete dias: 18,04. Quase 17,5 mil pessoas morreram em 365 dias. Especialista aponta falha no planejamento como causa do momento crítico e do colapso na saúde. Em um ano desde a primeira morte, a Covid-19 já abreviou 17.499 histórias no Rio Grande do Sul. Vidas que, em uma pandemia, muitas vezes se confundiam, se cruzavam, se conheciam — e que até o momento do adeus, coexistiram.
Uma das últimas foi a de Taylor Luis Melha Abreu, jornalista de 26 anos, que morreu na segunda-feira (22), em Campo Bom, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Ele não conseguiu se despedir da avó Eva, que faleceu em 3 de março, aos 88 anos, por insuficiência respiratória em decorrência do coronavírus. Taylor já estava hospitalizado.
Assim como a mãe dele, Maria Helena, de 55 anos, também não conseguiu velar o corpo do filho, pois está intubada na UTI do Hospital Lauro Reus e ainda não soube da morte dele.
“Eles ficaram bem perto um do outro. Só que minha mãe estava intubada e meu irmão estava intubado. Ambos não tinham conhecimento que os dois estavam no mesmo lugar”, relata o irmão Eduardo.
Ele viu Taylor pela última vez por volta de 17h30 de segunda, pouco depois de o irmão ter uma parada cardíaca. Quando voltava para casa, cerca de uma hora depois, recebeu um telefonema com a confirmação de que uma nova parada cardíaca havia causado a morte do jornalista.
“Parece que ele estava esperando a gente se despedir dele”, comenta, emocionado, o irmão.
Taylor Abreu, de 26 anos, morreu de Covid-19 em Campo Bom
Arquivo Pessoal
‘Coração enorme’
O tempo, além da vacina, carrega a esperança de quem convive com a doença. Eduardo conta que a mãe apresentou sinais vitais bons nesta terça e os médicos avaliam reduzir a sedação.
Ele e o pai, que também se recupera da Covid, ainda não decidiram como irão informar a Maria Helena sobre Taylor. A preocupação atual está em acompanhar a evolução da recuperação dela.
“Estão analisando se vão ou não tirar o tubo para estimular que ela respire sozinha”, conta.
Enquanto isso, ficam as lembranças do irmão. “O Taylor foi o primeiro da nossa família a se formar. Um cara muito estudioso, sempre muito querido por todo mundo, sempre muito amigo, um coração enorme”, define.
Explosão de mortes em março
A morte de Taylor engrossa um dado aterrorizante. O Rio Grande do Sul lidera, entre todos os estados da nação, a taxa de óbitos por 100 mil habitantes nos últimos sete dias: 18,04, à frente de Rondônia, com 17,56, e mais do que o dobro da média nacional, que é de 7,68. (Veja o gráfico abaixo)
Só o Amazonas apresentou uma evolução mais dramática, quando, no começo do ano, houve crise no abastecimento de oxigênio nos hospitais do estado.
Em 4 de fevereiro, por exemplo, quando o AM chegou a registrar 25,17 óbitos por 100 mil habitantes, em média, nos sete dias anteriores, o RS tinha uma taxa de 2,76.
Após um leve recuo, duas semanas depois, o gráfico da média móvel de mortes de gaúchos iniciou uma escalada constante até chegar no patamar atual, enquanto que o Amazonas caiu e está em 5,91.
Atualmente, considerando a taxa de mortes por 100 mil habitantes em toda a pandemia, o RS ocupa a 8ª posição, com 150,8, sendo que já esteve nas últimas posições entre os 27 estados e o Distrito Federal. O Amazonas lidera com 285,1.
O avanço fica mais evidente na comparação mês a mês. Em 23 dias de março, mais de 5,1 mil pessoas morreram no Rio Grande do Sul, quase o triplo de todo o mês de fevereiro e 147% a mais do que dezembro, até então o mês mais letal da pandemia.
Ausência de planejamento, avalia especialista
Essas mortes são explicadas, em parte, pela superlotação nos hospitais gaúchos. Há três semanas, a taxa de ocupação dos leitos de UTI está acima de 100%, o que inviabiliza um tratamento intensivo adequado.
Infectologista de dois dos principais hospitais de Porto Alegre e professor da UFRGS, o médico Alexandre Zavascki apontou recentemente que, caso o índice de mortes por 100 mil habitantes que o RS registrava, há alguns dias, fosse aplicado para o resto do Brasil, o país ultrapassaria as 5 mil mortes diárias.
Initial plugin text
Ele avalia que, um ano depois do início das mortes por Covid no estado, faltaram ações com base na ciência para evitar o aumento de mortes. 
“É o resultado justamente da ausência de um planejamento baseado em ciência. O RS não adotou, por exemplo, uma conduta de menosprezar [o vírus], no sentido de ridicularizar, como fez o presidente do Brasil, mas também não teve nenhuma grande conduta em termos das medidas realmente necessárias. 
A gente não ampliou nada a nossa capacidade de diagnóstico, nunca tivemos um serviço de inteligência pra rastrear, monitorar quem eram e onde as pessoas estavam mais se contaminando. A gente se limitou a ficar no abre e fecha”, resume. 
O sistema de distanciamento controlado, que determina os níveis de abertura das atividades econômicas com base no avanço do vírus, não é eficaz no combate à doença, acredita Zavascki. 
“É um sistema que se mostrou atrasado, defasado em relação ao que conhecíamos do coronavírus. Serviu para, em algum momento, fazer a reabertura, mas se mostrou absolutamente insuficiente para predizer um aumento de carga hospitalar. Ele depende do aumento da carga hospitalar para dizer que estava ruim”, avalia. 
UTI do Hospital de Clínicas em Porto Alegre na terça-feira, 2 de março de 2021
Silvio Avila
Junto com a falta de controle, Zavascki também lembra que a chegada de novas variantes do vírus também pode ter impactado na curva de óbitos do estado. 
“Em um momento mais grave, talvez nós tenhamos a participação de variantes do vírus mais transmissíveis. Ainda não está 100% confirmado que isso teve um papel. Mas junto com a ausência completa de controle do sistema de monitoramento resultou neste colapso total do sistema de saúde no RS”, aponta.
Momentos de estabilidade
Nem sempre foi assim. A expansão nos leitos iniciou com o avanço das internações até o começo deste mês. O Rio Grande do Sul, aliás, foi exemplo ao Brasil em outras ondas.
Em maio de 2020, mesmo sendo uma das 150 cidades mais populosas do Brasil, Rio Grande tinha apenas 10 casos confirmados e um óbito por Covid-19.
Um mês depois, Pelotas, também no Sul do estado, foi a última cidade brasileira com mais de 200 mil habitantes a registrar mortes por coronavírus.
Testagem, medidas de isolamento e antecipação de crises eram alguns dos motivos elencados à época para justificar o bom desempenho diante do alto contágio em outros estados. Tudo isso ficou no passado.
Nesta semana, Pelotas tem 464 óbitos confirmados, Rio Grande tem 278 e até mesmo Garruchos, na Fronteira Oeste, o último município a registrar a doença, em outubro, teve duas mortes.
Apenas 26 cidades, das 497 (5,2%), não notificaram nenhum óbito por coronavírus.
Novo perfil de vítimas
O perfil médio da vítima do coronavírus no RS é homem, acima de 60 anos e morador da Região Metropolitana da Capital. Porém, os médicos já percebem uma mudança tanto na faixa etária como nas condições clínicas dos pacientes internados.
“Cada vez mais pacientes chegando com quadros muito graves, que entre a primeira e a segunda semana precisa já de UTI. Muitos pacientes na faixa dos 30, 40 anos, inclusive dos 20 anos, que eram quadros absolutamente incomuns”, diz Zavascki. 
Como uma das principais hipóteses, o médico sugere que é possível que os jovens estejam sendo expostos a cargas virais mais altas. 
“Os governantes têm a ideia de que em algum momento isso vai passar e que, enquanto isso, podem ir tocando a vida normal. Isso é um erro gravíssimo, porque não vai passar se a gente não fizer nada. E só com a vacinação a gente não vai conseguir vencer também”, alerta. 
O Rio Grande do Sul aplicou, até as 18h de terça (23), 63% das quase 2 milhões de doses de vacinas recebidas. Isto corresponde, no entanto, a pouco mais de 16% dos grupos prioritários e a 7% da população geral. E isto apenas com a primeira dose.
“Não acredito que daqui a um ano estaremos na normalidade. Mas podemos ter, sim, se fizermos um bom trabalho. Se fizermos as coisas que temos que fazer, a gente pode ter um cenário de baixa circulação viral, uma normalidade nos serviços de saúde e a normalidade em outros serviços, com proteção adequada”, conclui Zavascki.
Vídeos: Tudo sobre o RS
Initial plugin text

Ultimas notícias

Governo do RS substituiu classificação de bandeiras por emissão de alertas para o monitoramento da pandemia

Dados regionais serão analisados e, caso GT de saúde perceba tendências de agravamento, governo emitirá alertas. Municípios deverão...

RS tem aumento de 55% em feminicídios em abril de 2021

Levantamento da Secretaria de Segurança Pública do estado compara os dados com o mesmo período do ano passado....

RS tem queda nos casos de latrocínio e homicídio em abril

Enquanto houve redução nos índices de crimes contra a vida, estado viu crescer número de ataques a banco....

Universidade cria campanha para arrecadar alimentos em São Leopoldo; saiba como doar

Unisinos pretende arrecadar recursos para a compra de 2 mil cestas básicas. É possível doar dinheiro por depósito...

Veja tambem