'Começamos a ver o esgotamento dos nossos ventiladores', diz diretora do Hospital de Clínicas de Porto Alegre


HCPA tem 167 respiradores em UTI adulto atendendo 188 pacientes. Instituição tem remanejado aparelhos de outras áreas para atender pacientes. Diretora-presidente do Hospital de Clínicas fala sobre desafios em meio à pandemia
A diretora-presidente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Nadine Clausell, falou, nesta segunda-feira (8), no Bom Dia Rio Grande, da RBS, sobre os esforços da equipe médica para remanejar respiradores de outras áreas para atender pacientes com Covid, nos últimos dias.
“De quinta (4) para sexta-feira (5), quando nós começamos a ver o esgotamento dos nossos ventiladores, se conseguiu fazer uma série de medidas intra-hospital, retirar ventiladores da emergência pediátrica, até da UTI de neonatologia ontem [domingo] de noite. Fizemos toda uma revisão do nosso parque para tentar realocar aparelhos de mais alta performance para esses pacientes. Também conseguimos emprestado de alguns outros hospitais. Tomamos algumas medidas de fazer contato com algumas empresas”, explicou.
Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, o HCPA tem 167 respiradores em UTI adulto atendendo 188 pacientes.
“Este, sim, é um recurso que pode ser finito. Porque nós estamos usando já aparelhos que não são ótimos, em alguns casos, aparelhos de anestesia. Esta é uma conta que nos preocupa muito”, afirmou.
Nadine recebe, nesta segunda-feira (8), a comenda Porto do Sol, maior distinção oferecida pela Câmara de Vereadores da Capital. Além de ser no Dia Internacional da Mulher, a entrega da condecoração ocorre após críticas de um parlamentar contra a médica. Em um pronunciamento no plenário da Câmara, no dia 24 de fevereiro, o vereador Idenir Cechhin (MDB) disse que Clausell espalha “o terror” sobre a pandemia.
“Essas previsões elas não eram com intuito de fazer terrorismo, de forma alguma. Era de que nós pudéssemos ter uma consciência conjunta de solidariedade, do que significa o tamanho desta pandemia, envolvendo uma tragédia pessoal e de todos”, explicou a médica.
Conforme dados atualizados no domingo (7) pelas secretarias da Saúde do estado e do município, o Hospital de Clínicas tinha ocupação de 112% dos leitos de UTI, com 187 pacientes em 167 vagas. Outras 48 pessoas aguardavam por leitos críticos na emergência.
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Reprodução/RBS TV
Mulheres na saúde
Nadine Clausell falou do reconhecimento às profissionais da saúde no dia 8 de Março. Segundo a diretora do HCPA, a maior parte da equipe da unidade é composta por mulheres.
“Estar aqui num dia como este, o Dia da Mulher, é um reconhecimento importante a todas as colegas profissionais da saúde e tantas outras nesta batalha. Mas num momento muito triste, ao mesmo tempo. É algo inimaginável, nós estarmos vivendo isso. É um misto de sentimentos no dia de hoje. A maioria aqui, dos profissionais, são mulheres que estão abrindo mão de uma série de coisas pra entrar de cabeça neste barco”, disse.
Perdas
A médica relatou o medo da volta pra casa e o impacto da pandemia na vida dos profissionais da área.
“Passam o dia aqui, às vezes viram noites, emendam um plantão no outro. E voltar para casa, como é que faz? Às vezes tem os pais idosos. A gente ouve histórias tão tristes em relação a tudo isso. Nós já estamos há um ano perdendo muito de repartir os afetos. Tudo isso tem um impacto que a gente ainda não consegue perceber, lamentou Clausell.
UTI do Hospital de Clínicas em Porto Alegre na terça-feira, 2 de março de 2021
Silvio Avila
Limites no atendimento
A diretora do Hospital de Clínicas falou sobre o aumento do limite de atendimento na instituição desde o início da pandemia.
“Qual é o limite? Daqui a uma semana a gente vai estar conversando e nós vamos estar fazendo esforços cada vez maiores para tentar acomodar estes pacientes, porque a curva não para de subir, todo dia é um recorde maior. Eu não sei qual é o limite. Eu achei que o limite, nós achávamos que o limite estava lá atrás”, disse.
Nadine Clausell garantiu esforços para atender todos os pacientes.
“O Clínicas botou para funcionar 55 novos leitos, todo mundo sabe disso. Nós nos reinventamos, foram fechando alas aqui dentro, invadindo sala de recuperação, trazendo anestesistas, mudando toda a equipe que atende a emergência, trazendo colegas de várias áreas para deixar que outra turma ficasse na emergência Covid. É um negócio inimaginável. Eu não sei dar esta resposta. Eu quisera puder dizer, mas o Clínicas está de cabeça nisso. Tudo o que nós pudermos fazer para tentar mitigar um pouco o risco e acolher, de alguma maneira, estas pessoas, nós vamos fazer”, avaliou a médica.
Bandeira preta e lockdown
Nadine Clausell também comentou sobre as expectativas sobre o comportamento da pandemia após a adoção da bandeira preta, o nível de risco mais alto no decreto de distanciamento controlado, em todo o RS.
“As nossas previsões e as dos nossos colegas epidemiologistas e infectologistas, é de que ainda vai demorar um pouco [para baixar a curva de casos e mortes]. Porque as medidas nos pegaram num momento de altíssima velocidade [de propagação do vírus]. É como tivesse um caminhão em alta velocidade e colocar um freio, tentar colocar um freio. Demora, tem um arrasto”, disse.
Para a médica, as medidas restritivas precisariam ser mais duras para se ter respostas mais rápidas na diminuição de infectados e de pacientes que necessitam de internação.
“Isso também proporcional à intensidade das medidas. São medidas restritivas de circulação. Mas isso não é um lockdown, como foi observado em outros países. Então, portanto, a demora vai ser maior para que se observe o que aconteceu, por exemplo, em Portugal. Que, em questão de três ou quatro semanas, saiu de um pico muito vertiginoso para, praticamente, números desprezíveis de mortalidade. Mas foi um lockdown, é um lockdown ainda absoluto. Longe do que nós fazemos aqui. Portanto, respondendo, vai demorar um pouco mais para que a gente possa observar alguma redução para reorganizar minimamente o sistema de saúde”, estimou.
Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Robson da Silveira/SMS/PMPA
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