Temor fiscal e eleição presidencial pesam sobre a bolsa brasileira, enquanto balanços do segundo trimestre derrubam ações como Hapvida e Banco do Brasil
Quem acompanha o noticiário econômico brasileiro já percebeu que a Bolsa de Valores não está passando por um bom momento. Nesta quinta-feira, dia 13 de agosto, o Ibovespa fechou com queda de 0,23%, aos 167.100,95 pontos, marcando a oitava sessão seguida no vermelho, algo que não acontecia desde 2023, quando o principal índice da B3 ficou treze pregões consecutivos em queda.
Por que a bolsa brasileira acumula perdas
O movimento chama atenção porque contrasta com o desempenho dos mercados internacionais. Enquanto o Ibovespa patina, os principais índices de Nova York fecharam em alta, puxados pelo setor de tecnologia, que levou o S&P 500 a um novo recorde. A inflação ao produtor nos Estados Unidos, o chamado PPI, ficou estável em julho, resultado que ajudou a aliviar a pressão sobre o Federal Reserve quanto a uma eventual alta de juros. Ou seja, o cenário externo até favoreceu os mercados, mas essa onda positiva não chegou ao pregão brasileiro.
Parte da explicação para a queda por aqui está na temporada de resultados corporativos do segundo trimestre. A ação da Hapvida foi a mais afetada do dia, com perda de mais de 33%, depois que a empresa reportou uma judicialização de processos bem pior do que o mercado esperava, o que dificultou a avaliação sobre a real rentabilidade da companhia. O Banco do Brasil também recuou, mesmo com lucro ajustado acima das projeções, porque o avanço da inadimplência entre pessoas físicas manteve os analistas cautelosos.
A presidenta do banco, Tarciana Medeiros, afirmou durante teleconferência com analistas que a instituição está adotando estratégias para reduzir a inadimplência no segmento agropecuário, que segue elevada e afeta diretamente produtores rurais em regiões como o norte do Rio Grande do Sul. Segundo ela, cerca de 70% das novas operações vinculadas ao Plano Safra já contam com alienação fiduciária como garantia, mudança que busca dar mais segurança às renegociações de dívida do setor.
O que preocupa o mercado no cenário fiscal e eleitoral
Além dos balanços, o principal fator citado por analistas para explicar a sequência negativa da bolsa é o temor fiscal, agora somado à proximidade das eleições presidenciais. Segundo Kevin Oliveira, sócio da Blue3, o mercado está cada vez mais preocupado com os discursos dos candidatos à Presidência e com dúvidas sobre um eventual novo desenho fiscal para o país. Já Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, avalia que sinais concretos de recuperação do arcabouço fiscal poderiam funcionar como gatilho para o Ibovespa, mas que esse tipo de sinalização dificilmente deve aparecer antes do período eleitoral.
Como parte do mercado enxerga o presidente Lula como favorito na disputa deste ano, gestores internacionais têm reduzido suas alocações em ativos brasileiros antes das eleições, movimento de cautela que também ajuda a explicar a pressão sobre o dólar, que fechou em alta de 0,25%, cotado a R$ 5,193, sua quarta valorização seguida frente ao real.
Sinais mistos na economia real
Nem tudo, porém, é negativo. Os dados macroeconômicos divulgados nesta quinta-feira trouxeram um retrato mais equilibrado da economia brasileira. As vendas no varejo cresceram 0,5% em junho na comparação com maio, segundo o IBGE, resultado acima do esperado pelo mercado. O avanço, no entanto, veio concentrado principalmente em itens essenciais, como alimentação, enquanto as vendas de bens que dependem de crédito recuaram, reflexo direto dos juros ainda restritivos e da inadimplência elevada entre consumidores.
Para a sexta-feira, o mercado brasileiro deve repercutir os dados de varejo dos Estados Unidos e o PIB preliminar do segundo trimestre da zona do euro, além de continuar de olho na sequência de balanços corporativos que ainda faltam ser divulgados. Enquanto isso, o cenário doméstico segue sendo moldado pela combinação entre temporada de resultados, incertezas fiscais e a corrida eleitoral que se aproxima, fatores que devem continuar pautando o humor dos investidores nas próximas semanas.
